quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Crítica: O Lado Bom da Vida (2012)



Uma comédia feijão com arroz, sem sal e sem tempero. É assim que eu definiria O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook), novo filme do diretor David O. Russell (o novo queridinho de Hollywood), concorrente ao Oscar deste ano.



O filme conta a estória de um professor, Pat Solano (Bradley Cooper), que após ser traído pela esposa acaba tendo um violento ataque de fúria, que o faz perder tudo que tem e ir parar num hospital psiquiátrico. No começo da trama, aparece Pat sendo liberado do hospital e voltando pra casa de seus pais junto com sua mãe. Seu sonho é recuperar tudo que perdeu, incluindo sua esposa. Ele está otimista quanto a isso, porém, fica claro (e isso o diretor define bem) que Pat tem um grande distúrbio que lhe causa mudanças repentinas de humor.

Duas cenas mostram bem seu comportamento irracional. A primeira é quando Pat fica insatisfeito ao terminar um livro e corre para o quarto dos pais, as 4 horas da manhã, para reclamar do final infeliz: "A vida é dura o suficiente. Porque alguém deveria ler algo que mostra o quão ruim as coisas podem ficar?. A segunda, é quando Pat chega em casa e resolve rever o vídeo do seu casamento, e como não o encontra em lugar nenhum, começa a fazer um escândalo, acordando toda a vizinhança.



No entanto, Pat recebe um convite para jantar na casa de um amigo e lá acaba conhecendo Tiffany (vivida por Jennifer Lawrence), uma garota misteriosa e também cheia de problemas, que ainda sofre com a morte precoce de seu marido. Desse encontro acaba nascendo uma relação forte de amizade, entre duas pessoas que necessitam de ajuda e acabam achando um no outro aquilo que precisam.

Tiffany resolve então fazer um trato com Pat. Ela ajudaria ele a reconquistar a mulher se, em troca, ele aceitasse dançar junto com ela em um concurso. Ele aceita, e os dois logo começam os ensaios. Porém, é a partir daí que o filme começa a se perder. O foco do enredo muda completamente e se vira para o pai de Pat (vivido por Robert De Niro) e suas apostas no futebol. Acho que o diretor pecou ao misturar as duas estórias, fazendo uma fusão delas, como quando o pai resolve apostar no concurso de dança que o filho iria participar.




O enredo é bastante simples e previsível, e não consegue cativar. Sobre as atuações, foram impecáveis, isso não posso negar. Jennifer Lawrence e Bradley Cooper formam um casal entrosado e se saem muito bem em cena. Destaque também para o Robert de Niro (que há tempos não fazia um papel decente no cinema) e para Jacki Wheaver, que faz a mãe de Pat.

Por fim, O Lado Bom da Vida pode até ser considerado um bom filme para passar o tempo, mas não merece a indicação que recebeu ao Oscar. Aliás, de todos os concorrentes deste ano, é o que menos gostei.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Crítica: A Hora Mais Escura (2012)


Concorrente ao Oscar de melhor filme desse ano, A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty) é mais um filme arrojado da diretora Kathryn Bigelow, vencedora do Oscar em 2010 por Guerra ao Terror. Ela retorna novamente ao tema do terrorismo, e nos mostra em duas horas e meia todos os esforços que o governo americano e a CIA fizeram para encontrar os principais membros da Al-Qaeda, sobretudo seu líder, Osama Bin Laden.




O filme começa arrastado, com um emaranhado de informações sobre os ataques ao World Trade Center em 2001 e os ataques posteriores que a rede terrorista propagou pela Europa. Parece-me aqui, que a diretora faz de propósito para nos mostrar a importância do nome de Bin Laden na história do mundo, porém, achei um pouco exagerado.

Outro ponto excedente da narrativa acontece logo na primeira cena, onde os americanos torturam um árabe na busca por informações. Muita gente criticou o filme e o viu como uma apologia ao métodos usados pela CIA, e eu não tiro a razão. Talvez o excesso nisso tudo tenha sido o tempo de duração da cena, que ficou quase meia-hora mostrando os horrores cometidos pelos americanos contra o prisioneiro.



No entanto, após esse começo lento, o filme começa a ganhar ação. Um tanto exagerada em algumas partes, eu diria, o que acaba tornando-o apenas mais um filme de "guerra", sem reflexões ou questões éticas. O enredo é seco e mostra o que tem de ser mostrado, mas parece faltar uma interferência mais humanista pelo lado da diretora. Os dados parecem ser jogados, e muita coisa fica sem explicação.

Sobre as atuações, eu até gostei da Jéssica Chastain no papel principal. Ela conseguiu se passar bem pela "mulher por trás da captura de Bin Laden". Aliás, esse é um ponto que gostei do filme: pouca gente (inclusive eu) sabia que havia uma mulher comandando tudo, e achei bonito a forma como isso foi mostrado. Até achei justa a indicação da Chastain ao Oscar, mas não aposto minhas fichas nela.



Enfim, A Hora Mais Escura talvez seja o melhor filme da carreira de Bigelow, mas ainda assim falta algo. Foi importante pelo contexto todo e por mostrar uma história importante que merecia uma adaptação, mas Bigelow continua sendo a campeã em filmar cenas longas e desnecessárias, e isso acaba arruinando seus filmes.


10 Filmes Inesquecíveis da Sessão da Tarde

Se você nasceu nos anos 70, 80 e 90, certamente deve lembrar de boas tardes jogado no sofá assistindo filmes na televisão, assim como eu. Alguns desses filmes ficaram na memória e trazem uma certa nostalgia quando leio sobre eles. Por isso, resolvi fazer uma lista dos dez que mais me marcaram e que até hoje lembro com muito carinho. Confira abaixo essa "turma do barulho que arranjou altas confusões" em tardes que não voltam nunca mais.

1 - Os Batutinhas (The Little Rascals) - 1994


Se tem um filme que me dá saudades desse tempo de Sessão da tarde, é esse. Os Batutinhas gira em torno de um grupo de meninos que resolve criar o "clube dos homens" e passam a odiar as meninas. Até que um deles, Alfafa, se apaixona por uma garotinha, e acaba arrumando confusão com os amigos. O filme, que tem a clássica cena do "Meninos bléh - Meninas bléh", é um dos mais queridos dos anos 90.

2 - Meu Primeiro Amor (My Girl) - 1991

Uma estória belíssima, e ao mesmo tempo extremamente triste. Meu Primeiro Amor mostra a percepção do que é o amor aos olhos de duas crianças de 11 anos, Vada e Thomas, até que uma tragédia acaba os separando. Foi, literalmente, meu primeiro amor por um filme.

3 - Um Tira no Jardim de Infância (Kindergaten Cop) - 1990


O filme conta a estória de um policial que é confundido com um professor do jardim de infância e acaba tendo de lidar com uma turma cheio de pequeninos. Estrelado por Arnold Schwarzenegger, o filme é divertidíssimo e é marcado pela famosa frase do menininho "Meninos tem pênis, meninas tem vagina".

4 - Um Herói de Brinquedo (Jingle All The Way) - 1996


Mais um filme de comédia infantil estrelada por Schwarzenegger, Um Herói de Brinquedo mostra a corrida de um pai nas vésperas de natal em busca do presente que o filho pediu, um boneco do "Turbo Man". Porém, além de não encontrar em estoque, ele ainda tem de lutar contra um outro pai, que também quer comprar pro seu filho o mesmo boneco. Um filme engraçado, que apesar de ser meio bobinho, acaba passando uma mensagem bem bacana no final.

5 - Lembranças de Outra Vida (Fluke) - 1995


O filme mostra a estória de um homem obcecado pelo trabalho que morre em um acidente de carro e volta à vida no corpo de um cachorro. Relembrando o passado, ele volta a casa de sua ex-esposa e de seu filho para tentar protegê-los do homem que causou o acidente, e vai descobrindo que na vida passada, nunca foi o pai e o marido que ele sempre achou que fosse. Apesar de ser surreal e bastante carregado de simbolismos religiosos, o filme é um dos mais belos que já vi na vida, ainda hoje, e traz uma mensagem espetacular.

6 - Esqueceram de Mim (Home Alone) - 1990


A trilogia de Esqueceram de Mim certamente é uma das mais lembradas quando se fala em Sessão da Tarde, principalmente na época do natal, e o primeiro filme da série é o melhor deles. A confusão começa quando uma família resolve viajar de natal e esquece um dos filhos, de 8 anos, em casa. O garoto (vivido por Macaulyn Culkin) tem de se virar sozinho e ainda defender a casa de dois ladrões que tentam invadi-la.

7 - Enchente, Quem Salvará Nossos Filhos (The Flood - Who Will Save Our Children?) - 1993


Geralmente passava no "Cinema em Casa" do SBT, mas vale a lembrança no post porque realmente é um filme que marcou demais minha infância. Na volta de um acampamento, após uma forte tempestade, um ônibus lotado de crianças acaba ficando preso numa correnteza e muitos deles acabam sendo levados por ela. O filme mostra, além da luta pela sobrevivência, toda a dor e angústia dos pais das crianças.

8 - Babe - O Porquinho Atrapalhado (Babe) - 1995

É claro que esse filme não poderia ficar fora da lista. Um dos filmes mais doces da minha infância, Babe mostra a vida na fazenda do Sr. Hoggett até que nasce um porquinho que pensa ser um cachorro. Talvez seja o melhor (e único bom) da linha de "filmes de animais falantes", já que o porquinho é uma graça e cativa a todos.

9 - A Cura (The Cure) - 1995

Certamente um dos mais belos filmes que já tive a experiência de assistir. Conta a estória de um garoto isolado, que sofre todos os tipos de preconceito por parte dos colegas, e acaba fazendo amizade com um vizinho de 11 anos, que tem AIDS. Os dois meninos tentam de tudo para chegar a um médico, que eles acreditam que tem a cura para a doença. Um filme tocante, e um dos primeiros que me fez chorar em frente a televisão.

10- Querida, Encolhi as Crianças (I Shrunk the Kids Honey) - 1989

Clássico absoluto, assim como as sequências "Querida, Encolhi a Gente" e "Querida, Estiquei o bebê", esse filme é outro que passava constantemente no SBT. Ao testar uma máquina de encolher objetos, o cientista maluco que a inventou acaba encolhendo os filhos, por engano, e após descobrir o ocorrido, tenta de tudo para reverter o efeito. A clássica cena das crianças na grama, na companhia de uma formiga, marcou minha infância.



Então, você lembra de mais algum? Tem algum filme fora da lista que te marcou e que você até hoje não consegue esquecer? Comente aí, que de repente faço uma segunda parte da lista só com base em sugestões.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Crítica: César Deve Morrer (2012)



Júlio César, obra de William Shakespeare, já ganhou tantas adaptações para o cinema, que poderíamos pensar que nada de diferente surgiria com seu nome. Porém, César Deve Morrer (Cesare deve Morire) está aí para comprovar que enquanto houverem diretores criativos, sempre haverá espaço para novas re-adaptações.




Filmado inteiramente no presídio de Segurança Máxima de Rebibbia, na Itália, e encenado apenas por detentos, o filme é uma grata surpresa, tanto na qualidade da produção, como na qualidade das atuações, misturando teatro, documentário e ficção.

Dirigido pelos irmãos Paolo Taviani e Vittorio Taviani, o filme mostra toda a preparação da peça, acompanhando a montagem, o teste de elenco, e os ensaios, até finalmente chegar o dia da encenação final, feita pelos detentos num teatro para pessoas de fora. A narrativa tem momentos emocionantes, como na hora em que, ao voltar para cela no final de tudo, um dos detentos diz a seguinte frase: "No momento em que conheci a arte, essa cela se tornou uma prisão".



Os diretores não fazem questão de esconder os crimes cometidos pelos detentos e muito menos defender a inocência de cada um, mas está na cara que aquela atividade cultural mudou a cabeça de muitos deles e os fez transportarem-se para uma nova realidade, pelos menos por alguns meses. Rodado em preto e branco (que eu particularmente achei uma escolha perfeita e que fez toda diferença), César Deve Morrer é um dos melhores de 2012 e, apesar de ser atual, já pode ser considerado um clássico. Viva o cinema, viva a arte!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Crítica: Argo (2012)



Como ator, confesso que Ben Aflleck nunca me agradou, mas parece que como diretor ele finalmente encontrou o rumo certo. Argo é definitivamente o melhor filme de sua carreira até então. Baseado em fatos reais, o filme mostra a crise que se instaurou entre Estados Unidos e Irã no ano de 1979, logo após os americanos decidirem dar abrigo a um ex-ministro Iraniano deposto.




A trama começa apresentando, em forma de prefácio, as situações políticas em que viviam os dois países no final da década de 70. Logo após, somos transportados ao Irã, onde uma onda de protestos contra os Estados Unidos acabam gerando a invasão da Embaixada Americana no país. A cena é muito bem construída, e traz o primeiro momento de tensão psicológica do filme. Após a invasão, todos os presentes no prédio são feitos de reféns. Porém, seis deles conseguem fugir antes de serem pegos, e se refugiam na casa do embaixador Canadense em Teerã.

Numa tentativa de resgatar esses seis refugiados, a CIA manda para o oriente médio o agente Tony Mendez, vivido pelo próprio Ben Aflleck. Surge então uma ideia improvável: fingir que Mendez é da produção de um filme Canadense e que ele está indo ao Irã para testar possíveis locais para a gravação.



Com ajuda de um produtor famoso, Mendez escolhe o roteiro de um filme de ficção científica chamado Argo. Os dois cuidam de todos os detalhes, incluindo a criação de um cartaz oficial e a divulgação na mídia, para dar o máximo de veracidade possível na estória. O agente então consegue chegar ao Irã e encontrar o grupo, e para conseguir fugir do país, vai dando a cada um sua função na produção do enredo fictício. 

O filme nos traz excelentes momentos de tensão, como na cena final, no aeroporto, onde eles são interrogados acerca de suas verdadeiras identidades. Além de Aflleck, o elenco conta com os competentes Bryan Cranston, John Goodman e Alan Arkin. A narrativa do filme é frenética e direta, sem apelar para efeitos, e consegue percorrer num mesmo filme gêneros distintos como o suspense, o drama, o policial e até mesmo a comédia.


Por fim, Argo representa o que há de melhor no cinema de hoje em dia e, apesar de não ser meu preferido, é um forte candidato a levar o Oscar de melhor filme após ganhar o Globo de Ouro e o prêmio máximo da associação de atores e produtores dos Estados Unidos.


domingo, 27 de janeiro de 2013

Recomendação de Filme #01

O Homem Elefante (David Lynch) - 1980

A partir de hoje, todo domingo vou postar uma sugestão de filme para quem visita o blog, e é claro que eu não poderia deixar de começar com aquele que, para mim, é o melhor filme que a humanidade já foi capaz de produzir, O Homem Elefante, de David Lynch.




Filmado em preto e branco, O Homem Elefante (The Elephant Man) narra a história real de John Merrick (interpretado de forma brilhante por John Hurt), que devido a um terrível caso de elefantíase tinha 90% do corpo deformado. Por conta disso, ele acabou virando atração principal de um circo, onde era maltratado pelo dono e "vendido" ao público como uma aberração nunca antes vista. Vendo sua situação e disposto a ajudá-lo a ter uma vida mais digna e humana, o Dr. Frederick Treves (Anthony Hopkins) resolve tirá-lo daquele ambiente hostil, levando-o para o hospital onde trabalha.

No decorrer da história, Dr. Treves descobre que John tinha muito mais a oferecer do que ele próprio imaginava. O que o diretor David Lynch nos traz é uma grande crítica à sociedade e aos seus preconceitos. Na vida real, Merrick sofreu demais com o repúdio das pessoas, já que desde que o mundo é mundo, tudo o que é diferente acaba sendo visto com receio e medo pelo ser humano. O filme mostra isso com muita sensibilidade e ao mesmo tempo com muita crueza.



Com uma narrativa objetiva, O Homem Elefante mostra uma jornada incrível de auto conhecimento de um homem que, por saber que era diferente, aceitava ser tratado como uma aberração. O desenvolvimento do personagem e suas novas visões de mundo emocionam até mesmo o mais duro dos seres. O pior de tudo é pensar que ele não deixa de ser um filme atemporal, já que é impossível não pensar que esse tipo de atitude ainda ocorre nas grandes cidades, com as pessoas deficientes por exemplo. Talvez esteja aí o grande legado do filme.


Indicado a oito Óscars, é o primeiro trabalho reconhecido de Lynch, que logo veio a ser aclamado pela crítica com seus filmes psicológicos e densos. Trata-se de uma bela lição de vida, de valores, de solidariedade e de humanidade. Simplesmente não há como definir o encanto dessa verdadeira obra-prima do cinema, resta apenas dizer: assistam o mais rápido possível.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A genialidade de Stanley Kubrick



É sempre perigoso quando alguém se refere a um bom diretor chamando-o de gênio. Mas quando esse mesmo diretor possui uma carreira praticamente toda de excelentes filmes, alguns taxados como verdadeiras obras-primas, creio que o adjetivo possa ser justamente empregado. Nesse caso, Stanley Kubrick pode ser sim, com todos os méritos, considerado um eterno gênio da sétima arte.

Aliás, não é de hoje que considero-o como meu diretor favorito. Tive a grata oportunidade de crescer assistindo suas obras, e posso dizer que foi "amor à primeira vista". Lembro muito bem do momento em que assisti De Olhos Bem Fechados, meu primeiro filme seue o quanto aquela experiência me deixou embasbacado.


                         


Kubrick era um perfeccionista obsessivo, e isso talvez seja o principal motivo de ele ter feito apenas 13 filmes ao longo de seus 70 anos de vida, um número muito baixo para os padrões se compararmos com outros diretores famosos. Esse seu perfeccionismo doentio acabava sendo exaustivo para os atores e para a produção, e criou muitos problemas com seus companheiros de filmagens ao longo da carreira. Um exemplo clássico é quando Jack Nicholson surtou após ser obrigado a refazer um take centenas de vezes durante a gravação de "O Iluminado", e saiu pelos corredores do estúdio gritando "Just Because you're perfectionist, doesn't mean you're perfect".

Acredito que esse cuidado tão excessivo nas filmagens, fosse devido a sua preocupação com o espectador. Kubrick tentava transpôr elementos que fizessem com que seus filmes fossem mais do que apenas obras cinematográficas, mas quase uma sessão psiquiátrica. Kubrick sabia como entrar exatamente em nossas mentes, causando desconforto, medo, aflição, excitação e mais uma gama de sentimentos, seja pelos personagens, seja pela trilha sonora ou pela fotografia usada. Basta você assistir qualquer filme do diretor, para perceber quão bem trabalhada foi cada cena, cada ato, cada fala.

Uma das suas curiosidades é que, tirando os seus dois primeiros filmes, o restante de sua filmografia é baseada inteiramente em adaptações. Portanto, sua genialidade não vem da forma como ele criava enredos, mas sim, pela forma como ele colocava a estória aos nossos olhos.




A carreira de Kubrick começou logo cedo, aos 17 anos, como fotógrafo da Look Magazine, onde seu nome começou a obter um certo sucesso. Porém, ele só se aventurou no cinema em 1951, quando gravou uma série de curtas-metragens. Entre eles, o mais conhecido foi Day of the Night, que mostrava os bastidores do mundo do boxe. Em 1953, graças ao apoio financeiro de amigos e familiares, ele conseguiu gravar seu primeiro longa-metragem, Medo e Desejo (Fear and Desire), que já abordava um dos assuntos mais recorrentes da sua carreira, a guerra. Apesar de ser considerado até hoje um trabalho muito fraco (tanto é que o diretor proibiu depois o seu relançamento em cinema e vídeo), o longa serviu como uma experiência importante para o diretor. 

Em 1955, Kubrick gravou A Morte Passou Por Perto (Killer's Kiss), que trouxe um certo destaque, e fez com que os críticos passassem a enxergá-lo como um diretor promissor. Porém, foi somente no ano seguinte que ele passou a ser reconhecido como um grande cineasta.




Foi com O Grande Golpe (The Killing), lançado em 1956que ocorreu o grande impulso na carreira. Considerado seu primeiro grande clássico, conta a história de um grupo de bandidos que decidiram roubar o dinheiro das apostas das corridas de cavalo. O filme impressiona pela narrativa não-linear e pelo humor negro.

O ator Kirk Douglas ficou tão impressionado com O Grande Golpe, que decidiu contratar o diretor para seu novo filme, Glória Feita de Sangue (Paths of Glory). O filme, lançado em 1957, é considerado até hoje, de forma quase unânime pelos críticos, como o melhor filme já realizado sobre a Primeira Guerra Mundial. Um filme de guerra que não fala sobre heróis, mas sim sobre covardes. É com ele que Stanley Kubrick passa a ter seu nome conhecido ao redor do mundo.



A parceria com Kirk Douglas continuou no épico Spartacus, lançado em 1960. Esse talvez tenha sido o filme mais conturbado e controverso da carreira do diretor, em termos de relacionamento com o estúdio e com os membros da equipe. Ele entrou na direção substituindo Anthony Mann, que era o diretor escalado inicialmente mas que acabou saindo por causa de brigas com Douglas. No entanto, o clima entre Douglas e Kubrick foi ainda pior, e os dois tiveram graves discussões a respeito das cenas e dos personagens. Apesar de ir até o fim das gravações, Kubrick sempre renegou o filme por ele não ter tido nenhum poder de decisão.



No início da década de 60, decepcionado com Hollywood, Kubrick decidiu se mudar para a Inglaterra, onde morou até o fim da sua vida. Foi a partir de então que ele passou a fazer seus filmes mais memoráveis da carreira.

Em 1962, Kubrick adaptou para as telas o romance Lolita, do escritor Vladimir Nabokov. Por se tratar de um tema polêmico (um homem mais velho que se envolve com uma garota de 12 anos de idade), a adaptação teve de ser feita com muito cuidado para evitar possíveis problemas com a censura, e acabou sendo muito bem aceito pela crítica. Não é considerado um dos melhores filmes do diretor, inclusive por mim. Mas é um grande filme que marca a estreia de Kubrick como um diretor britânico.

Dois anos depois do lançamento de Lolita, o diretor lançou um filme tão polêmico quanto o anterior, Dr Fantástico (Dr. Strangelove). O longa, que no início era para ser um drama sobre a guerra fria (até porque pouca gente na época estava preparada para ouvir falar sobre a ameaça atômica com bom humor), acabou virando uma comédia ácida e de humor negro com o ator Peter Sellers de carro chefe. Uma das cenas mais emblemáticas do filme é a que aparece um cowboy montando em cima de uma bomba atômica, em pleno ar. O filme fez tanto sucesso, que acabou tendo 4 indicações ao Oscar, incluindo a de melhor diretor.




Tudo isso acabou criando a atmosfera perfeita que Kubrick precisava para lançar aquele que veio a ser o seu filme mais cultuado (e ousado) até os dias de hoje. Apresentando efeitos especiais que para a época eram inimagináveis (e até hoje são considerados incríveis aos nossos olhos), o diretor lança o enigmático 2001 - Uma Odisséia no Espaço (2001 - A Space Odyssey), em parceria com o autor de livros de ficção científica Arthur C. Clarke. Dono de um roteiro fascinante, que possibilita diversas interpretações, é o filme mais complexo e tecnicamente bem feito da sua carreira. Um verdadeiro êxtase cinematográfico que não foi muito bem aceito pela crítica, mas foi calorosamente recebido pelo público. Foi com ele, que Kubrick ganhou o seu primeiro e único Oscar, de efeitos especiais.


Nesse momento, a carreira do cineasta já era consagrada, e ele já fazia parte do seleto grupo dos melhores diretores da história do cinema. Porém, a parte mais "popular" do diretor, digamos assim, estava apenas começando.

Em 1971, Kubrick lança Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), mais um filme rodeado de controvérsias, baseado no livro futurista de Anthony Burgess. Diferente da adaptação de Lolita que foi suavizado para as telas, em Laranja Mecânica o diretor não amenizou o polêmico conteúdo do livro. O filme é recheado de cenas de violência brutal e sexo, que fez com que fosse proibido em alguns países, com a acusação de incitar a violência. É considerado por grande parte dos fãs como o melhor filme da sua carreira, e visualmente é de fato impecável, uma verdadeira obra-prima.




Mostrando toda sua versatilidade, um dos seus pontos fortes, Kubrick resolve então lançar um drama de época magnífico, ambientado no século 18. Barry Lyndon, de 1975, é para mim o melhor filme da carreira de Kubrick e um verdadeiro exercício da perfeição. Suas cenas são milimetricamente trabalhadas, e seu visual deslumbrante. Foi o filme mais caro de Kubrick e que lhe rendeu mais trabalho, mas a obra final com certeza fez valer a pena todo o esforço. A saga de um cavaleiro que atravessa a Europa determinado a conquistar a nobreza, seja por intermédio da sedução, da trapaça ou do confronto mortal, foi um sucesso unânime da crítica, porém um fracasso nas bilheterias.




Após rejeitar o convite para dirigir a sequência de O Exorcista, o diretor resolveu adaptar para as telas a novela de terror O Iluminado (The Shining), do escritor Stephen King. Mais uma vez, sua busca pela perfeição pode ser notada, devido a suas formas simétricas, e longas sequências sem corte, além de um jogo de cores fabuloso. O filme marcou o auge da fama de Kubrick como um diretor excêntrico, apesar dele nunca ter gostado do seu resultado final, assim como o próprio escritor da estória original.




Depois de O Iluminado, lançado em 1980, o diretor levou 7 anos para lançar um novo filme. Mas a espera, como sempre, valeu a pena. Com Nascidos Para Matar (Full Metal Jacket), Kubrick volta a filmar sobre a guerra (coisa que ele não fazia desde Dr. Fantástico em 1964). Dessa vez, ele nos ambienta na Guerra do Vietnã, e divide o filme em duas partes distintas. A primeira é genial e talvez a melhor do filme, e foca na preparação dos recrutas antes de irem para as trincheiras. Já na segunda, depois de ambientar-nos junto aos personagens, ele põe-os no front de batalha. 

O filme só não foi melhor nas bilheterias porque demorou demais para ficar pronto, e quando enfim foi lançado, já existiam diversos outros sobre o assunto, incluindo o sensacional Platoon, de Oliver Stone. Isso deixou Kubrick bastante deprimido, mas mesmo assim, o longa acabou sendo um sucesso de público e crítica.




Em 1999, Kubrick concluiria aquele que seria seu último trabalho da carreira, De Olhos Bem Fechados (Eyed Wide Shut). Gravado com imensa segurança, (parte devido aos astros Tom Cruise e Nicole Kidman fazerem parte do elenco), o filme levou 3 anos para ficar pronto e foi considerado pelo próprio Kubrick como o melhor filme feito por ele até então. Pena que ele não pode assistir a estreia nos cinemas, pois 4 meses antes, no dia 07 de março de 1999, o cineasta morreria de um ataque no coração enquanto dormia na sua residência em Hertfordshire, na Inglaterra.




No período antecedente a sua morte, Kubrick estudava levar as telas o filme A.I Inteligência Artificial, que acabou sendo lançado posteriormente com a direção de Steven Spielberg. Fica aquela pontinha de dor, em pensar como teria sido esse filme nas mãos desse gênio. Mas como saber, não é mesmo? É como Martin Scorsese disse em uma entrevista uma vez: "Sim, não teremos mais filmes do Kubrick, e isso é triste. Porém, cada vez que você revê um filme dele pela segunda ou terceira vez, você percebe uma infinidade de coisas que você não havia percebido antes. Então, apesar de sua pequena filmografia, podemos ver e rever suas obras e a magia será sempre diferente". Faço minhas as suas palavras, Scorsese.




Kubrick era um homem recluso, de poucas palavras, que odiava entrevistas, e dono de uma vida particular conturbada, mas que deixou um legado para o resto da eternidade. Seu nome tem lugar reservado na história do cinema, e porque não dizer, na história das artes em geral.

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Crítica: Hitchcock (2013)



Que Alfred Hitchcock é conhecido como o mestre do suspense e do mistério no cinema, isso todos sabem. No entanto, poucos sabem que seu braço direito e principal colaborador na carreira era nada menos que sua mulher, Alma Reville. Ela era a palavra final na hora de escolher um roteiro para adaptar para as telas, além de ajudar o marido na direção e edição de seus filmes. É basicamente nessa relação que é centrada a trama de "Hitchcock", filme do diretor Sacha Gervasi. 




O filme, que se passa durante as gravações do clássico "Psicose", mostra a fundo todas as dificuldades que Hitchcock e Alma tiveram para produzir o maior clássico do suspense de todos os tempos. A luta contra a censura, a falta de interesse dos estúdios por uma estória que para eles não tinha sentido, e por fim, a desconfiança do público.

A direção de Sacha Gervasi, no entanto, peca no ritmo, que é bastante lento e sem atrativos. Você fica até o final apenas pela curiosidade de acompanhar os bastidores de Psicose, mas não pela qualidade da trama, que é definitivamente fraca. A atuação de Anthony Hopkins como Hitchcock é brilhante, mas a maquiagem não ficou legal. Em nenhum momento eu conseguir "ver" realmente Hitchcock, e isso fez falta. O elenco ainda conta com Hellen Mirren no papel da esposa Alma Reville, James D'arcy que interpreta Anthony Perkins (ator que fez o psicopata da história original) e Scarlett Johansson que interpreta Janet Leigh (a mocinha do filme de 1960).



Enfim, pode-se afirmar que "Hitchcock" é um filme para poucos. Se você nunca assistiu a Psicose ou nunca leu sobre a história de Ed Gein (o assassino que inspirou o filme), provavelmente não entenderá metade do que se passa em seus noventa minutos, pois o filme é direcionado a um público "X" e não faz questão de explicar nem as coisas mais básicas aos demais.