domingo, 31 de março de 2013

Recomendação de Filme #10

                          O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel) - 2007


Em O Escafandro e a Borboleta (Le Scaphandre et le Papillon), o diretor Julian Schnabel volta a tratar de um tema recorrente em seus filmes: a luta pela vida e a ajuda da arte para superar as dificuldades.



A trama se baseia na história real de Jean-Dominique Bauby, redator chefe da revista francesa Elle, que sofre um derrame aos 42 anos de idade enquanto andava de carro na companhia do seu filho. Após três semanas em coma, ele desperta cercado de médicos e enfermeiros, que logo detectam que ele perdeu para sempre os movimentos de todo o corpo, com exceção do olho esquerdo.

Nos primeiros minutos do filme, nos vemos dentro da cabeça de Bauby. A câmera nos dá a visão dele, em um artifício poucas vezes visto no cinema. Ele passa a viver no quarto do hospital, e seu mundo passa a ser apenas aquele ambiente. Seus dias são obviamente monótonos, e dividem-se entre momentos de descanso e as visitas de sua ex-esposa Celine e alguns amigos. Porém, não há nenhuma espécie de comunicação entre eles.




Uma fonoaudióloga é contratada para tentar uma comunicação com o paciente, e acaba inventando um esquema simples, mas eficiente. Usando um quadro com as letras do alfabeto francês, ela diz cada uma delas em voz alta e o paciente fica na tarefa de piscar na escolhida, formando assim palavras e consequentemente frases. Dessa maneira, Bauby e sua médica conseguem suavizar um pouco o sentimento de prisão criada devido a sua incapacidade motora.

Na segunda parte do longa, temos as primeiras cenas fora do hospital, com a aparição de flash-backs da vida do paciente. Percebemos que ele não era nenhum santo, mas apesar disso, sofremos e torcemos juntos pela sua recuperação. Além da visão, Bauby também não perdeu seu espírito criativo e sua memória, e com ajuda do sistema criado, acabou escrevendo um livro relatando suas memórias, que foi um sucesso de vendas quando lançado e após sua morte.



O diretor tratou do assunto com brilhantismo, sem apelações, fazendo com que o filme não caísse em momento algum no comum. Destaque também para a atuação de Mathieu Amalric, que teve a dura missão de dar vida a um personagem imóvel, e conseguiu transmitir com perfeição todo o drama de alguém na situação mostrada. Outro ponto que preocupava o diretor, além da imobilidade do personagem, era a sequência de cenas em que a fonoaudióloga dita as letras. Ele tentou ao máximo fazer com que não ficasse repetitivo e desgastante, e ao meu ver, o efeito deu certo.

Considero a escolha do nome genial. Em uma analogia, podemos dizer que ele acabou tendo de viver em um escafandro, mas com a ajuda da médica, ele conseguiu sair e ver o mundo, literalmente com outros olhos. Por fim, devo dizer que O Escafandro e a Borboleta é uma das mais belas estórias que já tive a oportunidade de acompanhar nas telas. É um desses filmes que terminam e você se sente feliz de estar vivo e poder assisti-lo. Uma verdadeira lição!


quinta-feira, 28 de março de 2013

Estreias da Semana (29/03 a 04/04)

Um fim de semana de gigantes nos cinemas brasileiros. Nessa sexta-feira, 29/03, estreiam três filmes que estão na lista dos mais esperados pelo grande público nesse ano: A Hospedeira, Jack - O Caçador de Gigantes e G.I Joe 2 - A Retaliação. Ambos, abusando dos seus grandes efeitos visuais, prometem lotar as salas de exibições nesse feriadão.

De forma mais contida, só da França temos cinco produções entrando em cartaz. Destaques para Sejam Bem-Vindos, do famoso diretor Jean Becker (de Minhas Tardes com Margueritte) e Dentro de Casa, suspense do diretor François Ozon. Ainda temos uma comédia (Adeus Berthe - O Enterro da Vovó) e um filme de animação (Titeuf - O Filme) advindos do país europeu, além de uma co-produção com Israel no filme Uma Garrafa no Mar de Gaza, vencedor de vários prêmios.

Da América do Sul, estreia o argentino O Ultimo Élvis, drama sobre a vida de um cover do rei do rock. O Brasil passa a semana em branco no ramo da ficção, mas lança um documentário histórico sobre a ditadura militar, de Camilo Tavares, chamado O Dia que Durou 21 Dias.

Enfim, abaixo você confere a lista completa dos filmes que entram em cartaz a partir de amanhã nos cinemas de todo país.


                                                         A Hospedeira

A fome e a violência foram erradicadas da Terra, bem como os problemas climáticos do planeta foram resolvidos. Estes feitos foram conquistados graças aos seres alienígenas conhecidos como almas, que ocupam corpos humanos como se fossem parasitas. Pregando uma sociedade baseada na paz, as almas perseguem os poucos humanos que ainda não foram dominados. Um deles é Melanie Stryder (Saoirse Ronan), que se sacrifica para que o irmão caçula, Jamie (Chandler Canterbury), possa escapar. Melanie passa a ser dominada por uma alma chamada Peregrina, que tem por missão vasculhar suas memórias para encontrar rastros de outros humanos. Entretanto, a consciência de Melanie ainda está viva dentro do corpo, o que faz com que Peregrina tenha que lidar com ela constantemente. Baseado no livro de Stepheni Mayer, da Saga Crepúsculo.

The Host, Estados Unidos, 2013
Direção: Andrew Niccol
Duração: 125 minutos
Classificação: 12 anos
Fantasia/Ficção Científica/Suspense
Assista o trailer aqui.

                                             Jack - O Caçador de Gigantes

Jack (Nicholas Hoult) é um fazendeiro que adquire grãos de feijão com a única recomendação de que não devem ser molhados. Obviamente, isto acaba ocorrendo e criando um enorme pé de feijão que vai dar em um mundo de gigantes. Em meio a tudo isso, a princesa Isabelle (Eleanor Tomlinson) é sequestrada pelos gigantes e Jack se unirá ao Rei (Ian McShane) numa cruzada para a salvar a jovem.

Jack: The Giant Killer, Estados Unidos, 2013
Direção: Bryan Singer
Duração: 114 minutos
Classificação: 10 anos
Aventura/Fantasia
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                                                 G.I Joe 2 - A Retaliação

Das montanhas da Ásia Central até os desertos do Egito, passando pelas ruas de Paris e pelas calotas polares do Polo Norte, o grupo de agentes de elite conhecido como G.I Joe embarca em uma aventura sem fim usando de suas mais modernas tecnologias para evitar que uma misteriosa organização leve o mundo ao caos.

G.I. Joe: Retaliation, Estados Unidos, 2013
Direção: Jon M. Chu
Duração: 110 minutos
Classificação: 14 anos
Ação/Aventura/Ficção Científica
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                                          Adeus Berthe: O Enterro da Vovó

Armand (Denis Podalydès), um farmacêutico obcecado, está passando por uma crise de meia idade. Ele tem que equilibrar as tensões da vida de casado e pai de família com sua relação com uma amante secreta. Ele começa a perder o controle quando sua avó morre e ele se depara com a seguinte questão: enterro ou cremação?

Adieu Berthe: L'Enterrement de Mémé, França, 2012
Direção: Bruno Podalydès
Duração: 100 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia
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                                                       Dentro da Casa

Um rapaz de 16 anos consegue entrar na casa de um colega da sua aula de literatura e resolve escrever sobre o fato no seu trabalho de francês. Animado com o dom natural do aluno e o progresso do seu trabalho, o professor volta a apreciar a função de educador dos jovens. Entretanto, a invasão do aluno vai desencadear uma série de eventos incontroláveis.

Dans La Maison, França, 2012
Direção: François Ozon
Duração: 105 minutos
Classificação: 14 anos
Suspense
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                                               Sejam Muito Bem Vindos

Taillandier (Patrick Chesnais) é um famoso pintor, já na casa dos sessenta anos de idade que um dia simplesmente resolve parar de pintar. Deprimido, ele toma a decisão de ir embora, sem rumo, e sem dar explicações a ninguém. No meio do caminho, ele encontra Marylou (Jeanne Lambert), uma adolescente rejeitada pela mãe. Logo os dois se tornam próximos, como pai e filha, e passam a viver juntos.

L'Homme de Chevet, França, 2013
Direção: Jean Becker
Duração: 92 minutos
Classificação: livre
Drama
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                                             Uma Garrafa no Mar de Gaza

Tal tem 17 anos, é judia e mora em Jerusalém, enquanto que Naim tem 20 anos, é palestino e mora em Gaza. Apenas 60 milhas os separam em relação à distância, mas o histórico de guerra entre os povos é um grande complicador. Só que uma garrafa jogada ao mar pode mudar a situação entre eles, trazendo forças para que suportem esta dura realidade.

Une Bouteille à la Mer, França/Israel, 2012
Direção: Thierry Binisti
Duração: 100 minutos
Classificação: livre
Drama
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                                                       Titeuf: O Filme

Titeuf (voz de Donald Reignoux) foi o único menino de sua sala que não foi convidado para o aniversário de Nádia (Mélanie Bernier). Isso o decepciona, pois ele sempre se esforça para impressionar a menina. Atrelado a isso, seus pais estão prestes a se divorciar. Em meio a toda essa situação turbulenta o menino irá aprender a superar seus problemas e arrumar um jeito de ser convidado ao aniversário de Nádia

Titeuf - Le Film, França, 2011
Direção: Zep
Duração: 87 minutos
Classificação: livre
Animação/Comédia
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                                                       O Último Élvis

O cantor Carlos Gutiérrez (John McInerny) é cover de Elvis e sempre viveu a vida do grande astro do rock como se fosse ele próprio reencarnado, negando a si mesmo. Só que ele se aproxima da idade que Elvis tinha ao morrer, e seu futuro se mostra vazio. Uma situação inesperada acaba por obrigá-lo a cuidar da sua filha Lisa Marie (Margarita Lopez), uma menina pequena que ele quase não vê. Nos dias em que fica com ela, Carlos experimenta ser realmente um pai e Lisa aprende a aceitá-lo como tal. Mas o destino lhe apresenta uma difícil decisão: em uma viagem de loucura e música, Carlos deverá escolher entre seu sonho de ser Elvis e sua família.

El Ultimo Elvis, Argentina, 2012
Direção: Armando Bo III
Duração: 91 minutos
Classificação: 12 anos
Drama
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                                               O Dia Que Durou 21 Dias

Este documentário mostra a influência do governo dos Estados Unidos no Golpe de Estado no Brasil em 1964. A ação militar que deu início a ditadura contou com a ativa participação de agências como CIA e a própria Casa Branca. Com documentos secretos e gravações originais da época, o filme mostra como os presidentes John F. Kennedy e Lyndon Johnson se organizaram para tirar o presidente João Goulart do poder e apoiar o governo do marechal Humberto Castelo Branco.

O dia que durou 21 dias, Brasil, 2013
Direção: Camilo Tavares
Duração: 78 minutos
Classificação: 14 anos
Documentário/História
Assista o trailer aqui.

quarta-feira, 27 de março de 2013

Os 5 melhores filmes de Quentin Tarantino.

Dos anos 90 para cá, o cineasta Quentin Tarantino talvez seja o mais expressivo no que se refere a sucesso de crítica e publico. Em um pouco mais de duas décadas de carreira, Tarantino já conquistou seu espaço entre os principais diretores da história, além de levar para casa diversas premiações mundo afora.

O cineasta, que tem descendência Italiana e nasceu no estado do Tennessee, descobriu logo jovem que queria ser diretor de cinema, quando trabalhava numa locadora de filmes. Reza a lenda de que ele teria visto todos os filmes que haviam disponíveis nas prateleiras, fato que deu a ele uma bagagem cultural imensa sobre o assunto.

Tarantino ganhou fama entre o público com seus filmes intensos e violentos, com personagens de índole duvidosa e diálogos ácidos e inteligentes, e seus filmes são cultuados por pessoas de todas as idades. Além da carreira de diretor, Tarantino ainda é conhecido por produzir e roteirizar filmes de outros diretores, principalmente com seu parceiro de longa data, o americano Robert Rodríguez (Sem in City, Um Drink No Inferno, Planeta Terror).

Abaixo, em sua homenagem, fiz uma lista com os 5 melhores filmes do diretor, na humilde opinião desse que vos escreve. Foi difícil deixar alguns de fora, mas aí está:

                              1. Pulp Fiction  - Tempo de Violência (1994)

Sendo o filme do diretor que mais arrecadou prêmios e fãs ao longo dos anos, Pulp Fiction é talvez sua obra mais importante até então. Apesar de ter sido rodado de forma independente, isso não o impediu de ter virado, mesmo que seja relativamente recente, um dos grandes clássicos do cinema mundial. Grandioso, com um bom elenco e um enredo fantástico, Tarantino mostrou nesse seu segundo longa da carreira que surgiu de fato para revolucionar a cena independente do cinema.

                                 2. Kill Bill - volumes 1 e 2 (2003 e 2004)

Histórias de vingança existem aos montes no cinema, mas poucas foram tão bem escritas e dirigidas quanto a duologia Kill Bill. O diretor havia escrito em apenas uma noite o roteiro do primeiro filme, que ficou jogado anos e anos no fundo de uma gaveta. Um dia ele reencontrou esse roteiro e resolveu transformar em filme, e foi assim que surgiu essa grande experiência cinematográfica.

No filme, Tarantino cria um mundo novo, à sua maneira, e aos seus modos (com muita violência, é claro), ao contar a história de uma noiva que sobrevive depois de uma chacina no seu casamento e resolve se vingar do autor. Assim como grande parte dos seus filmes, a narrativa não é contada linearmente, e o filme é cheio de reviravoltas e cenas inesquecíveis. Uma verdadeira obra-prima recheada de humor-negro.

                                         3. Bastardos Inglórios (2009)

Talvez o melhor filme dessa fase mais "madura" do diretor, Bastardos Inglórios mostra de vez que Tarantino é mestre no que faz. E mais uma vez, o mote principal da trama é o sentimento de vingança.

Primeiramente somos apresentados a Shoshanna, uma camponesa que sobrevive após um massacre da sua família, e se estabelece como dona de um cinema usando uma identidade falsa. Logo após, conhecemos o tenente Aldo Raine, que comanda um grupo de judeus que lutam contra os nazistas. Em um determinado momento do filme, essas duas histórias paralelas acabam se cruzando, da maneira mais surpreendente que se possa imaginar. Um filme que mostra sua genialidade nos detalhes, nos diálogos, e nas fortes atuações.

                                            4. Cães de Aluguel (1992)

Um grupo de criminosos é apenas um grupo de criminosos, mas na mão de Quentin Tarantino, as coisas não sao tão simples quanto parecem ser. Cães de Aluguel é o tipo de filme que te faz sentir valer a pena estar vivo, só para ter a oportunidade de assisti-lo. Trata-se do primeiro longa-metragem da carreira do diretor, onde já detectamos as principais características das suas obras posteriores: violência, diálogos longos e mordazes, e roteiro inteligente.

                                                5. Django Livre (2012)

Filme mais recente do diretor, Django Livre é uma homenagem dele ao gênero Faroeste, que ele cresceu assistindo, e que estava no abstratismo ultimamente. Sem perder o estilo sanguinário e violento, esse talvez seja o filme mais "simples" e engraçado do cineasta. No cinema, a experiência foi única.

- Outros destaques do diretor: Jackie Brown (1997) e À Prova de Morte (2007).

domingo, 24 de março de 2013

Crítica: Pietá (2012)


Conhecido por seus filmes brutais e ao mesmo tempo sensíveis, o Sul-Coreano Ki-dum Kim traz em Pietá (Pieta) uma dura crítica ao mundo moderno regido pela ganância e aos extremos que o homem chega por causa do dinheiro. E como todo filme Coreano que se preze, é carregado por um único sentimento do começo ao fim: vingança.



A trama narra a vida de Kang-Do, um homem de 30 anos que vive sozinho e sem luxos em seu apartamento, e trabalha cobrando dívidas para os agiotas. O diretor não poupa esforços para mostrar todo o lado sádico do personagem, que usa de violência extrema contra os que não podem pagar, aleijando-os e alterando assim suas vidas para sempre.


De repente uma misteriosa mulher aparece na sua vida, dizendo ser sua mãe que o abandonou quando ele ainda era uma criança. O início dessa relação entre mãe e filho chega a ser cômico, com ele não acreditando e ela o seguindo por todas as partes. Até que ele resolve aceitá-la no seu apartamento e começa a nutrir um certo sentimento por ela com o passar dos dias.



Esse aparecimento repentino da mãe é apenas o pontapé inicial (e central) da estória. O personagem se mostra extramente selvagem, e de início trata a mãe com hostilidade, até pelo fato de nunca ter tido uma experiência de ser amado na vida antes. Mas com o tempo acaba se apegando tanto, que não consegue mais se ver vivendo a vida solitária de antes.

Pietá possui cenas fortes de violência física, mental e até mesmo sexual, fato que fez com que em muitas amostras do filme as pessoas saíssem ainda na metade. Mas não se pode dizer que tenham sido cenas gratuitas. Ao meu ver foi uma tentativa do diretor de mostrar um pouco da natureza humana e seus instintos, e logicamente não poderia ter sido diferente.



Sobre as atuações, é de se bater palmas de pé para os dois protagonistas. Lee-Jung Jin interpreta Kang-Do de forma magistral, enquanto Min-Soo Jo nos faz sentir à flor da pele as emoções da sua personagem, tamanha é a sua entrega.




Por fim, trata-se de um longa cheio de reviravoltas, e com um final inesquecível. Brutalmente lindo, é um filme que te faz refletir durante horas após terminar. Resumindo: um filme para os que tem coração e estômago fortes.


Recomendação de Filme #09

Irreversível (Gaspar Noé) - 2002


Incômodo, chocante, e diferente de tudo que você talvez já tenha visto algum dia. É assim que começo descrevendo Irreversível (Irréversible), do polêmico Gaspar Noé, conhecido pelo uso de violência extrema e de narrativas propositalmente perturbadoras.




O enredo da estória é incrivelmente simples: um namorado descobre que sua namorada foi estuprada e parte em busca de vingança. Mas quem conhece os filmes do Gaspar Noé sabe que nas mãos dele nada é tão simples quanto parece.

O filme começa bastante estranho, o que talvez afaste algumas pessoas. Já nos créditos iniciais, temos a primeira peculiaridade: os nomes aparecem de trás para frente, como se você estivesse de frente a um espelho. Logo depois, Noé começa a primeira cena fazendo uso de câmeras inquietas, que não param de girar, enquanto ao fundo você ouve uma trilha sonora perturbadora. De fato, muitas pessoas acabam largando o filme antes da metade por conta desses detalhes, o que é um grande erro.



Um ponto que ressalto, é que Noé não economizou no nível de realidade ao mostrar as cenas mais violentas do filme. A primeira acontece logo na segunda sequência do filme, enquanto os dois amigos Pierre e Marcus estão à procura do estuprador em uma boate gay. Para defender o amigo de um ataque, Pierre faz um enorme estrago na face de um homem com um extintor de incêndio. A câmera mostra toda a degradação do rosto enquanto são efetuados os golpes, e mesmo usando de efeitos visuais para tal, é difícil digerir o que se vê, já que é incrivelmente real.

A segunda cena marcante do filme é a do estupro da personagem vivida pela atriz Monica Bellucci, o verdadeiro centro de todo o enredo. É impossível ficar indiferente ao que ocorre nos 11 minutos da cena (que aliás, foi gravada em apenas uma tomada, fato que merece todos os elogios). É uma cena perturbadora, que fica na cabeça do espectador por dias, talvez pra sempre.



Noé merece os elogios pela sua edição, que certamente é um dos pontos fortes do filme, que não foi bem recebido pela crítica, que julgou que o diretor teria usado de violência extrema para promover um filme de roteiro pobre. Eu sinceramente não concordo.

Sobre as atuações, posso dizer que não deixaram a desejar. Vincent Cassel, Albert Dupontel e Monica Bellucci estão redondinhos, sem nada a ser criticado. Aliás, esse é outro ponto importante do filme: a desconstrução dos personagens ao longo do tempo. Você começa o filme com Marcus e Pierre mostrando todo seu lado violento em busca de vingança, e nas cenas finais (o início da estória na verdade) eles parecem tão serenos e pacíficos, que nos dá a impressão de que não seriam capazes de tudo o que vieram a fazer depois.



Enfim, um dos filmes mais perturbadores que já tive a oportunidade de assistir. Por ser polêmico e difícil de digerir, Irreversível é um filme que divide opiniões. Alguns amam e outros odeiam, mas uma coisa é fato: ninguém sai o mesmo depois de assisti-lo. Veja e comprove.

sábado, 23 de março de 2013

Crítica: Xingu (2012)


Xingu, produzido por Fernando Meirelles e dirigido por Cao Hamburger, mostra a aventura na floresta Amazônica dos irmãos Villas-Bôas, que posteriormente resultou na criação do Parque Nacional do Xingu, um exemplo de proteção aos povos indígenas do Brasil.



Largando o conforto da cidade grande para viver no meio do mato e em companhia dos Índios, os irmãos Orlando (Felipe Camargo), Leonardo (Caio Blat) e Cláudio (João Miguel) mal imaginavam que acabariam tomando decisões que mudariam para sempre suas vidas e a dos indígenas no país.


A trama mostra o passo a passo da aventura dos três, desde o pontapé inicial até a criação do parque, revelando os efeitos que a aproximação com tribos que nunca haviam visto o homem branco causaram em ambos os lados.


Sem querer ser político, mas querendo de alguma forma mostrar o descaso com que os governantes de modo geral tratam o povo indígena, o filme mostra todos os problemas e disputas que houve (e ainda há) entre índios e fazendeiros com apoio do governo, e a luta contra a desapropriação de suas terras.


Talvez o ponto fraco do filme seja o roteiro, que é bem mal construído. Parece que o exagero de informações e a vontade de colocar tudo no filme acabou fazendo com que tudo fosse mal aproveitado, o que gera pouco envolvimento com o espectador. Outro ponto que debilita a trama são as atuações, fracas e mal aproveitadas, como a do Caio Blat e a da Maria Flor (essa, aliás, aparece sem falar uma frase sequer). A exceção fica por conta do excelente João Miguel, que novamente surpreende com uma atuação segura e verdadeira.



Porém, nem toda parte técnica deve ser criticada. A fotografia, por exemplo, é belíssima, com direito a imagens panorâmicas do extenso verde da floresta e dos seus inúmeros rios e cachoeiras. Xingu, no entanto, não um filme sobre índios propriamente dito, mas sim, um filme sobre três "heróis" da história do país que poucos conheciam. Heróis esses, que chegaram a ser indicados ao prêmio nobel da paz, e acho que está aí o principal legado do filme.



quinta-feira, 21 de março de 2013

Estreias da Semana (22/03 a 28/03)

Nessa sexta-feira, dia 22 de março, entram em cartaz seis novos filmes nos cinemas de todo o país. O Dinamarquês A Caça, e a produção Franco-Mexicana Depois de Lúcia são os destaques da vez. No gênero de ação, Parker promete agradar o público alvo e para as crianças, tem Os Croods, filme de animação dos mesmos criadores de Madagascar.

No cinema nacional, tem o novo filme do comediante Bruno Mazzeo, o Vai que Dá Certo e Râina, que vêm lá do nordeste.

Enfim, abaixo vocês conferem a lista completa com a ficha técnica e o trailer de cada uma das estreias.

A Caça


Lucas (Mads Mikkelsen) trabalha em uma creche. Amigo de todos, ele tenta reconstruir a vida após um divórcio complicado, no qual perdeu a guarda o filho. Tudo corre bem até que, um dia, a pequena Klara (Annika Wedderkopp), de apenas cinco anos, diz à diretora da creche que Lucas lhe mostrou suas partes íntimas. Klara na verdade não tem noção do que está dizendo, apenas quer se vingar por se sentir rejeitada em uma paixão infantil que nutre por Lucas. A acusação logo faz com que ele seja afastado do trabalho e, mesmo sem que haja algum tipo de comprovação, seja perseguido pelos habitantes da cidade em que vive.

Jagten, Dinamarca, 2012.
Direção: Thomas Vinterberg
Duração: 106 minutos
Classificação: 14 anos
Drama
Assista o trailer aqui.

Os Croods


Os Croods são uma família que vivem em plena era pré-histórica. Eles sempre viveram dentro de uma caverna, já que Grug, o pai, teme que o mundo exterior de alguma forma os atinja. Só que, um dia, a caverna onde eles moram desmorona e um incrível novo mundo se abre para eles. Juntos, os Croods precisam se adaptar a esta nova realidade.

The Croods, Estados Unidos, 2013
Direção: Chris Sanders/Kirk de Micco
Duração: 98 minutos
Classificação: livre
Animação/Aventura/Comédia
Assista o trailer aqui.

                                                       Depois de Lúcia


Quando a esposa de Roberto (Gonzalo Vega Jr.) morre, a relação dele com sua filha Alejandra (Tessa Ia), de 15 anos, fica abalada. Para escapar da tristeza, pai e filha deixam a cidade de Vallarda e rumam para a Cidade do México em busca de uma nova vida. Alejandra ingressa em um novo colégio, e sentirá toda a dificuldade de começar de novo quando passa a sofrer abusos físicos e emocionais. Envergonhada, a menina não conta nada para o pai, e à medida que a violência toma conta da vida dos dois, eles se afastam cada vez mais.

Después de Lúcia, França/México, 2012
Direção: Michel Franco
Duração: 93 minutos
Classificação: 14 anos
Drama
Assista o trailer aqui.

                                                              Parker


Parker (Jason Statham) é um talentoso ladrão que é traído por pessoas de seu grupo e acaba quase morto. Ele, no entanto, acaba sobrevivendo ao atentado e despertará disposto a se vingar dos bandidos. Conhecendo o plano para um importante roubo na Flórida, Parker se passa por um milionário em busca de um imóvel na região. É quando conhece Leslie (Jennifer Lopez), uma corretora de imóveis em dificuldades financeiras que acaba se metendo no meio dos planos do criminoso.

Parker, Estados Unidos, 2013
Direção: Taylor Hackford
Duração: 118 minutos
Classificação: 14 anos
Ação/Policial/Suspense
Assista o trailer aqui.

                                                     Vai que dá Certo

Cinco antigos parceiros da adolescência chegam a conclusão de que não conseguiram realizar os sonhos que tanto falavam naquela época. Para mudar o cenário, o quinteto resolve botar em prática um plano muito louco: assaltar uma transportadora de valores.

Vai que dá Certo, Brasil, 2013
Direção: Maurício Farias
Duração: 87 minutos
Classificação: 14 anos
Comédia
Assista o trailer aqui.

                                                              Rânia

A adolescente Rânia (Graziela Felix) passa seus dias entre a escola municipal, os afazeres domésticos e o trabalho em uma barraca. Seu grande sonho, no entanto, é de se tornar dançarina. Com sua melhor amiga, Zizi (Nataly Rocha), Rânia descobre o Sereia do Norte, regada a festas e orgias, e passa a ganhar dinheiro com a vida noturna. Quando conhece a coreógrafa Estela (Mariana Lima), a garota tem sua grande chance de enfim se tornar dançarina profissional, mas para tanto precisa enfrentar a intransigência dos pais.

Rânia, Brasil, 2013
Direção: Roberta Marques
Duração: 85 minutos
Classificação: 14 anos
Drama
Assista o trailer aqui.

terça-feira, 19 de março de 2013

Crítica: A Viagem (2012)


A palavra que se encaixaria para definir esse novo trabalho dos irmão Andy e Lana Wachowski é: audácia. Pois sim, o filme é certamente um dos mais audaciosos e complexos que tive a oportunidade de assistir. Uma complexidade poucas vezes vista no cinema, ainda mais na atualidade, onde tudo vêm mastigado aos olhos do espectador.

A Viagem (Cloud Atlas) é um filme tão confuso, que até mesmo a simples pergunta "Você gostou do filme?" é difícil de responder no final. A questão que fica é: será possível gostar de um filme mesmo sem conseguir entendê-lo completamente? Graças à sua visão filosófica da vida, com seus belos diálogos e suas cenas milimetricamente trabalhadas, o filme prova que sim.


O longa, que é baseado na obra literária de David Mitchell (que muitos consideravam impossível de adaptar para as telas), conta 5 estórias paralelas, desde o século 19, passando pelo presente, e chegando a um universo futurista de cenário pós-apocalíptico. As tramas vão acontecendo intercaladas, sem uma forma cronológica reta.

Aliás, no filme nada é linear, e os diretores não se importam nem um pouco em explicar o que está acontecendo. Cabe a nós, espectadores, ir montando cada peça do quebra-cabeça para chegar a uma ideia final. Alguns conseguem, outros não. Muitos criticam suas 3 horas e 52 minutos de duração, mas confesso que eu não vi o tempo passar enquanto assistia, e sinceramente, não consigo escolher 10 minutos do filme que poderiam ser cortados sem afetar seu andamento. O filme pode ter seus defeitos, mas uma coisa que ele não possui são cenas inúteis.


Outro fato interessante é que os mesmos atores interpretam os personagens das 5 estórias. Porém a maquiagem é tão perfeita, que um olho pouco atento não consegue perceber isso. O grande destaque fica por conta do Tom Hanks, que está incrível em todos os seus papéis. Certamente a academia errou feio ao ignorar o filme nessa categoria do Oscar.

No final, entendendo ou não o ponto crucial da estória, A Viagem surpreende pela ousadia e pela qualidade sonora e visual, que te deixa completamente absorto. Ao terminar de assisti-lo, posso dizer que fiquei fascinado. Independente de qual seja a opinião final, é impossível fica indiferente a essa que, me atrevo a dizer, já é uma obra-prima do cinema moderno.




domingo, 17 de março de 2013

Recomendação de Filme #08

12 Homens e Uma Sentença (Sidney Lunet) - 1957 

É possível que um filme rodado inteiramente dentro de um único cenário consiga prender a atenção do espectador do começo ao fim sem ser cansativo, repetitivo e desinteressante? Em 12 Homens e uma Sentença (12 Angry Men), o lendário diretor Sidney Lumet nos comprova que tal façanha é possível, sim.


A premissa do filme é super simples. Doze jurados são designados perante um tribunal para decidir se um jovem, acusado de matar o próprio pai a facadas, é culpado ou inocente. No princípio, onze deles têm a certeza de sua culpa, e apenas um cogita a possibilidade da inocência.

Como a jurisdição americana diz que o réu só pode ser acusado de fato quando houver unanimidade entre o júri, e como todos os onze que votaram pela culpabilidade estão loucos para ir para casa e acabar com a "chatice", acaba tendo início um conflito contra o jurado número 8 (Henry Fonda), que não muda de jeito nenhum sua opinião. Todos vão para uma sala reservada e começam então a debater sobre o caso.


Com discussões de alto nível, pouco a pouco o personagem de Henry Fonda vai convencendo os outros de que o réu pode ser inocente, e que o caso merece ser analisado com atenção, já que o que está em jogo é uma vida humana e não um objeto. Aos poucos, o espectador também se vê na mesma dúvida dos jurados, e têm de escolher no que acreditar, já que o que realmente aconteceu com o jovem não é divulgado.

O interessante disso tudo é que o ambiente jamais fica cansativo, o que facilmente poderia ocorrer por não haver troca de locação, fazendo-se assemelhar quase a uma peça teatral. Os ângulos que o diretor busca para trazer dramaticidade são sensacionais. Os olhares e os gestos são valorizados ao extremo, assim como as falas de cada um parecem ser milimetricamente planejadas. Aliás, é impossível ficar indiferente aos diálogos super bem escritos e à forma perfeita que Lumet usou para transcrever a história. Se fosse escolher um filme para mostrar o quão importante essa junção perfeita é para o cinema, certamente seria esse.


O filme acabou não sendo tão bem sucedido nas bilheterias, mas com o passar do tempo ganhou uma legião de adoradores que conseguiram captar a verdadeira mensagem que ele quis passar. É impressionante como um filme tão modesto tenha se tornado um clássico, graças a força de seus diálogos e suas atuações.