segunda-feira, 31 de março de 2014

5 bons filmes sobre a Ditadura Militar no Brasil

Nesse dia 31 de março de 2014, completa-se 50 anos do golpe militar que mudou o cenário do país e perdurou por duas décadas. Repressão, medo, e falta de liberdade individual marcaram esse período negro na história do Brasil, que a maioria esmagadora da população não deseja reviver nunca mais.

Assim como acontece em todos os países que tiveram alguma espécie de ditadura, o cinema brasileiro também aborda insistentemente o assunto, tentando de alguma forma mostrar o horror que era viver na época, onde você era taxado de criminoso apenas por ser contrário a qualquer medida tomada pelo governo. Em lembrança à data, criei uma lista com 5 bons filmes que retratam o período. Confira abaixo e comente.

1. Pra Frente Brasil (1982)

Em 1970, enquanto o povo vibrava com a seleção brasileira na copa do mundo do México, a repressão comia solta por aqui. Nesse ínterim, um homem pacato de classe média (Reginaldo Faria) acaba sendo confundido com um ativista político, sendo capturado e torturado na prisão, enquanto sua família procura por notícias. O filme, que retrata o auge da repressão, foi lançado em 1983 quando a ditadura ainda estava em vigor, mas os protestos nas ruas já se faziam numerosos.

2. O Que É Isso Companheiro? (1997)

Em 1969, o grupo terrorista MR-8 elaborou um plano para sequestrar o embaixador americano Charles Burkie Elbrick (Alan Arkin), com a intenção de trocá-lo por presos políticos, que eram torturados nos porões da ditadura. Baseado no livro de Fernando Gabeira, o filme de Bruno Barreto concorreu ao Óscar de melhor filme estrangeiro em 1998.

3. Batismo de Sangue (2007)

No final dos anos 60, um convento de frades tornou-se um local de resistência contra a ditadura. Movidos pelos ideais cristãos, cinco freis passaram a apoiar o grupo guerrilheiro Ação Libertária Nacional, comandada por Carlos Marighella. Isso fez com que ficassem na mira das autoridades, que os prenderam e os torturaram em busca de informações, acusando-os de traidores da pátria.

4. Zuzu Angel (2006)

A estilista Zuleika Angel Jones (Patrícia Pillar) ganhou projeção internacional ao travar uma árdua batalha contra as autoridades nos anos 70, em busca do filho Stuart Angel Jones (Daniel de Oliveira), um ativista político que participava de movimentos estudantis e acabou sendo torturado e morto. O filme é um excelente registro da época, e mostra apenas uma das tantas história parecidas que ainda hoje trazem cicatrizes.

5. O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias (2006)

Um casal de militantes deixa o filho pequeno com o avô, para se esconderem da repressão. No entanto, eles dizem para o garoto que estão tirando umas férias, e prometem retornar até o fim da copa do mundo de 1970. Nesse tempo, porém, o avô acaba morrendo, e o garoto passa a ser cuidado por um judeu, vizinho do avô. Ele divide então seu tempo entre o medo do que vê em volta e a alegria de vibrar com a seleção de Pelé e cia.

domingo, 30 de março de 2014

Recomendação de Filme #52

O Piano (Jane Campion) - 1993


A diretora neo-zelandesa Jane Campion marcou seu nome na história do cinema em 1993, ao ser a primeira mulher a levar para casa a Palma de Ouro no Festival de Cannes. No ano seguinte ela ainda conquistaria o Óscar de melhor roteiro original, e só perderia o de melhor direção para Steven Spielberg, com seu A Lista de Schindler. A causa de tudo isso? O filme O Piano (The Piano), considerado um dos melhores filmes já feitos fora do solo americano.



Roteiros dramáticos estão fadados a ser apelativos. No entanto, quando o roteiro é bem construído, e as escolhas dos atores é feita a dedo, podemos ter um resultado surpreendentemente bom, com uma história crível e emocionante, como o visto nesse caso.

A trama gira em torno de Ada (Holly Hunter), uma mulher que é obrigada a se mudar junto com sua filha pequena para um vilarejo isolado na Nova Zelândia, após ter seu casamento arranjado pela família, que devia algo ao noivo. Sem falar desde os 6 anos, ela não tem muito o que fazer, e vai para o lugar com a missão de tentar se adaptar à situação.



Porém, logo na chegada, o marido Stewart (Sam Neill) não aceita que seus homens levem para casa o piano de Ada, que acaba abandonado no meio do nada. Apaixonada pelo instrumento, que serviu a vida toda como válvula de escape para os infortúnios da vida, Ada acaba desenvolvendo antipatia pelo marido após sua atitude.

Nesse ínterim, o comerciante local George (Harvey Keitel) resolve comprar o piano, instalando-o em sua própria casa. Interessado pela bela jovem, George pede a Stewart que ele a libere para lhe dar aulas de piano, e o que inicialmente era para ser uma relação de aluno e mestre, acaba se tornando uma relação de domínio e desejo.



Ada é chantageada por George, que promete devolver seu instrumento em troca de favores sexuais. No entanto, passados alguns dias, um sentimento verdadeiro passa a surgir entre eles. Mesmo temerosa quanto ao "pecado" que está cometendo, Ada se entrega de corpo e alma, da forma como nunca tinha tido oportunidade na vida.

Quando o marido descobre que as sessões de piano viraram na verdade encontros eróticos, acaba ficando enfurecido, e toma uma atitude extremamente violenta contra a jovem. Passado o surto, e recobrada a consciência, ele percebe que Ada nunca foi verdadeiramente sua, e numa atitude humana (ao contrário da anterior), ele deixa ela ir embora com George.



O final é dramático, quase um soco no estômago. A narrativa é primorosa, e a sofisticação visual encanta. Algumas imagens do filme ficarão marcadas para sempre na memória, como a cena em que George acaricia as pernas de Ada por um buraco em sua meia. Simples e lírico, o filme chama a atenção também pela excelência das atuações. A contradição que nos faz amar e odiar um personagem em poucos minutos, cria uma teia de emoções como poucas vezes vista, mostrando o quão mutável é a natureza humana e seus sentimentos.

Como era de se esperar em um filme que tem um piano como "personagem", a trilha sonora é fantástica. As melodias, quase todas tocadas no piano em cena, dão um toque especial. Impossível não se apaixonar e, até mesmo, se identificar com o filme. Um dos mais belos trabalhos feitos para o cinema, feito pelas mãos de quem conhece do assunto.


sábado, 29 de março de 2014

Crítica: Os Filhos do Padre (2014)


Qual a melhor forma de criticar dogmas e abordar temas polêmicos de forma leve e despretensiosa? O uso do bom humor é um excelente caminho. Com um roteiro original, Os Filhos do Padre (Svecenikova Djeca) chama a atenção para o cinema croata, pouco conhecido do público em geral.



A história do longa se passa na Dalmácia, uma bela região da Croácia, banhada pelo mar Adriático. O padre Fabijan (Kresimir Mikic) acaba de sair de um seminário para substituir o pároco local, e logo na sua primeira ação, ouve a confissão de um fiel que se sente culpado por vender preservativos para os moradores locais em sua banca. Segundo o homem, ele está sendo hostilizado pela mulher que afirma que ele está "matando pessoas antes mesmo delas viverem", para eles um pecado monstruoso.

Enquanto a natalidade da cidade chega a quase zero após começarem a ser comercializadas as camisinhas, o número de óbitos continua estável, tendo uma diminuição significante no número de habitantes. Preocupado com a situação, o padre resolve tomar uma atitude desesperada: furar todas os preservativos antes mesmo deles irem à venda, para que as crianças voltem a nascer e a população volte a crescer.



O tom de comédia é muito bem aplicado, com algumas cenas emblemáticas. Fica evidente que a intenção do diretor e roteirista Vinko Bresan era criticar algumas visões ultrapassadas da igreja por meio do bom humor, abordando temas polêmicos de forma leve e engraçada. Impossível conferir o longa sem lembrar do largo debate em torno do uso das camisinhas pela comunidade católica.

Indo contra as estatísticas do restante do país, a ilha alcança uma taxa de natalidade expressiva depois das medidas do padre. O fato acaba dando fama ao local, atraindo milhares de turistas que desejam ter filhos e veem na cidade a grande chance. Aos poucos, porém, a atitude de Fabijan vai sendo descoberta, trazendo uma série de mal entendidos e consequências inesperadas.



A narrativa é, por vezes, sonolenta, ainda que esteja longe de ser um filme ruim. A parte mais interessante é certamente o diálogo entre os párocos, e a crítica acerca de suas atitudes. Como por exemplo a cena em que o bispo do país chega na ilha, a bordo de uma lancha milionária (seria uma crítica ao bispo alemão Franz-Peter Tebartz-van Elst?), e Fabijan o compara a um mafioso.

Sobre as atuações, elas são simples mas não deixam a desejar. É um filme diferente, fora do comum, e você tem que entender isso logo de cara para poder gostar. A imprensa croata exagerou ao dizer que é o melhor filme deles em anos (e talvez seja, já que pouco se conhece de lá), mas é um bom filme para assistir e dar algumas risadas.


quinta-feira, 27 de março de 2014

Estreias da Semana (27/03 a 02/04)

O grande destaque dessa semana é a animação Rio 2, que assim como no primeiro, se passa em solo brasileiro. Dessa vez o pássaro Blu parte com a família numa aventura pela Amazônia, em busca de seus donos que estão no local para fazer mais pesquisas.

Dos Estados Unidos, estreia Tudo por Justiça (Out of the Furnance), protagonizado por Christian Bale. A história dramática trata de uma família desestruturada pela prisão de um dos irmãos, após um acidente de carro.

Da Europa, estreiam dois filmes interessantes. O primeiro é a animação O Congresso Futurista (The Congress), colaboração de vários países e dirigido pelo israelense Ari Folman (do excelente Valsa com Bashir). O outro é Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho (Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza), parceria entre Bósnia e Eslovênia, que deve contar a história de uma família de ciganos sustentada pelo trabalho de catador do patriarca.

Fechando a lista tem o colombiano La Playa, e os nacionais Entre Nós e Em Busca de Iara. Confira abaixo a lista completa com os dados de cada um.

Rio 2


Blu vive feliz no Rio de Janeiro ao lado da companheira Jade e seus três filhotes. Seus donos estão na floresta amazônica fazendo novas pesquisas, e após vê-los aparecer em um programa de tv, a família resolve partir para a Amazônia. Porém, eles não imaginavam que chegando lá iriam se deparar com um velho inimigo: Nigel.

Rio 2, Estados Unidos, 2013.
Direção: Carlos Saldanha
Duração: 102 minutos
Classificação: livre
Animação
Assista o trailer aqui.


Tudo por Justiça


Russell Baze (Christian Bale) trabalha em uma usina e mora com o pai, que enfrenta sérios problemas de saúde, e o irmão mais novo, que lutou na Guerra do Iraque. Um dia, Russell se envolve em um acidente de carro, onde uma criança acaba falecendo, e por isso ele acaba indo preso. Enquanto estava preso, o irmão acabou se envolvendo com um homem violento, que traz perigo para a família após a soltura de Russell.

Out of the Furnace, Estados Unidos/Reino Unido, 2013.
Direção: Scott Cooper
Duração: 117 minutos
Classificação: 16 anos
Drama / Suspense
Assista o trailer aqui.


O Congresso Futurista

Uma atriz em fim de carreira decide aceitar uma proposta ousada, mas muito bem paga, para ter condições de pagar um tratamento para seu filho deficiente. Segundo o acordo, ela deve colaborar com uma empresa, que vai fazer uma versão digital de sua imagem, criando uma atriz idêntica à ela. Enquanto a empresa utilizar sua imagem, ela está proibida de de atuar, e aos poucos ela começa a perceber as consequências catastróficas da atitude que tomou.

The Congress, Alemanha/Bélgica/França/Israel/Luxemburgo/Polônia, 2013.
Direção: Ari Folman
Duração: 123 minutos
Classificação: 12 anos
Animação / Drama /Ficção Científica
Assista o trailer aqui.


Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro-Velho

Nazif (Nazif Munjic) sustenta a família com seu trabalho de catador de ferro-velho. Todo dia, sai para trabalhar e deixa a parceira, que está grávida, com duas crianças. Após um longo dia, ele chega em casa e encontra a mulher com muita dor. Ao levá-la para o hospital, descobrem que a mulher necessita de um tratamento urgente, mas ao mesmo tempo, ficam sabendo que o plano de saúde não comporta, e precisam arcar com uma despesa que não possuem.

Epizoda u Zivotu Beraca Zeljeza, Bósnia/Eslovênia, 2013.
Direção: Danis Tanovic
Duração: 75 minutos
Classificação: 10 anos


Entre Nós

Sete jovens amigos viajam para uma casa de campo para celebrar a publicação do primeiro livro do grupo. Lá, escrevem cartas para serem abertas dez anos depois. A viagem acaba em tragédia, mas mesmo assim, eles se reúnem após esse período para lerem as cartas.

Entre Nós, Brasil, 2013.
Direção: Paulo Morelli
Duração: 100 minutos
Classificação: 14 anos
Drama
Assista o trailer aqui.


La Playa

Tomás é um jovem colombiano que teve que fugir de sua aldeia, no litoral do país, por causa da guerra, e agora vive em Bogotá. Quando Jairo, seu irmão mais novo e viciado em drogas desaparece, ele sai de casa para procurá-lo, contando com a ajuda de outro irmão, Chaco. Através de sua jornada pelas ruas da capital, Tomás irá fazer de tudo para reencontrar o irmão, enquanto luta para conquistar seu espaço na metrópole hostil.

La Playa D.C., Colômbia, 2013.
Direção: Juan Andrés Arango Garcia
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos
Drama

Em Busca de Iara

O documentário relata a trajetória excepcional de Iara Iavelberg. Apesar de ter uma situação financeira estável, ela decidiu abandonar a família e investir na luta armada durante a ditadura militar.

Em Busca de Iara, Brasil, 2014.
Direção: Flavio Frederico
Duração: 91 minutos
Classificação: 12 anos
Documentário

quarta-feira, 26 de março de 2014

Crítica: A Pele de Vênus (2014)


Alguns diretores se destacam dos outros por seu estilo próprio, e um ótimo exemplo disso é Roman Polanski. Os clássicos Repulsa ao Sexo (Repulsion), O Bebê de Rosemary (Rosemary Baby's) e O Inquilino (The Tenant), além do mais recente Deus da Carnificina (Carnage), possuem todos uma característica em comum: se passam em um mesmo ambiente, dando um clima bastante claustrofóbico à história.



A Pele de Vênus (Venus in Fur) não foge desse estilo, e se passa inteiramente dentro de um teatro envolvendo apenas dois atores durante toda a trama. O que poderia ser um verdadeiro fracasso resultou em mais um filme sublime de Polanski, graças a mão firme na direção e às atuações fantásticas.

Na trama, Thomas (Mathieu Amalric) está fazendo audições para sua peça estreante, A Pele de Vênus, adaptação do clássico de Sacher Masoch. Obcecada pelo papel principal, a atriz Vanda (Emmanuelle Seigner) usa de todo seu jeito excêntrico e dominador para convencer ele a ouvir sua encenação e escolhe-la.


Ao iniciarem o teste, Thomas logo percebe que ela está mais preparada do que ele imaginava. A atriz sabe todas as falas de cor, e com desenvoltura, toma para si a personagem como ninguém, palpitando sobre o enredo e as principais cenas. Com o tempo, ambos vão misturando ficção com realidade, iniciando um jogo perigoso entre eles.

Na peça, um homem pede à mulher que ama para que ela o torne seu escravo, infringindo todas as torturas que quiser. Aliás, é do nome do autor (Masoch) que vem a origem da palavra masoquista. Ao contracenar as cenas do roteiro, ambos passam a viver suas perversões. A personalidade provocante e dominadora de Vanda se sobressai, e aos poucos ela vai comandando a mente de Thomas, levando ele a fazer coisas estranhas.



Em um filme de dois personagens, é óbvio que as atuações e os diálogos teriam que ser magistrais para segurar o público até o fim. E absolutamente são. Mathieu Amalric (de O Escafandro e a Borboleta e Frango com Ameixas) prova mais uma vez porque é um dos melhores atores franceses dessa geração. Já Seigner (mulher de Polanski na vida real) chama a atenção não só por sua sensualidade, mas sua destreza.

O roteiro bem construído rendeu o Prêmio César (o Óscar francês) de melhor diretor para Polanski, além da indicação em outras diversas categorias. Por fim, há de se elogiar o diretor, que mesmo após cinco décadas, ainda não perdeu sua veia original. É sem dúvida um dos filmes mais interessantes do ano.


terça-feira, 25 de março de 2014

Crítica: O Grande Herói (2014)


Pode até ser pretensão minha, mas coloco desde já O Grande Herói (Lone Survivor) como um dos melhores filmes de guerra feitos para o cinema. Esqueça os filmes com excesso de patriotismo ou a figura do herói invencível (apesar do nome indicar que o filme será assim). Qualquer ideia sobre isso cai por terra nos minutos iniciais, onde logo percebemos não se tratar de um filme qualquer.



Após iniciar o filme mostrando cenas fortes e reais do treinamento quase desumano dos soldados da Marinha Americana, o diretor Peter Berg nos coloca na base americana de Bagram, no Afeganistão, onde os soldados estão planejando um ataque. Infiltrados no país, eles tem como missão invadir um vilarejo e capturar um membro poderoso da Al-Qaeda.

Enquanto aguardam ordens, os soldados brincam pelos pátios do local como verdadeiras crianças, apostando corridas e jogando cartas, mostrando que no fundo não sabem ao certo o que estão fazendo ali. O enredo concentra bastante na preparação do ataque, na escolha da melhor estratégia, e no estudo das zonas de ataque, que logo são nomeadas com nome de cervejas para fácil assimilação de todos.



Chega enfim o dia da missão. Os soldados vão chegando perto do vilarejo com muita precaução, através da floresta que cerca o lugar. A aproximação é lenta, e pode incomodar quem está acostumado com filmes de guerra cheios de ação. Para quem gosta de verdade de cinema, perceberá que a técnica ficou impecável. 

Tudo vai bem até que um grupo de pastores aparece na floresta, bem próximo de onde eles estão. Os americanos, temerosos com a situação, acabam capturando os pastores, o que dá início a um debate entre eles mesmos: matar os pastores, que parecem ser inofensivos, ou deixá-los ir embora correndo o risco deles não serem o que aparentam ser?



Após liberar os muçulmanos, o clima de tensão é evidente. Não demora para o grupo de soldados ser cercado por membros da Al-Qaeda, armados até os dentes, e que estão prontos para matar qualquer coisa viva que passe pela frente. Na confusão, três dos soldados são mortos, e apenas um sobrevive. Ele acaba sendo, para surpresa geral (e se você não viu o filme não recomendo continuar lendo esse parágrafo), sendo acolhido pelo grupo que ele havia libertado anteriormente, provando que eles nada tinham a ver com o ocorrido, ao contrário do que se pensava.



A homenagem final, feita para os soldados mortos na vida real, é belíssima e mexe com o coração do espectador. Afinal de contas, é uma história onde não há heróis, apenas um homem com um forte e irrepreensível instinto de humanidade, e um verdadeiro exemplo de solidariedade por parte daqueles que são vistos muitas vezes como inimigos.

Mark Wahlberg disse em entrevistas recentes que esse foi seu papel mais difícil da carreira, e não é para menos. Sua atuação é firme, e não deixa nada a desejar. Como dito anteriormente, o roteiro é muito bem construído e a forma como foi transcrito para as telas merece elogios. O Grande Herói é o tipo de filme que talvez não faça tanto sucesso hoje, mas certamente será lembrado futuramente.


quinta-feira, 20 de março de 2014

Estreias da Semana (20/03 a 26/03)

O grande destaque dessa semana fica por conta de O Grande Herói (Lone Survivor), estrelado por Mark Wahlberg, que contará a história de um soldado americano em meio à invasão no Afeganistão em busca de Osama Bin Laden. Dos Estados Unidos tem ainda a comédia Namoro ou Amizade? (That Awkward Moment).

No cinema nacional, estreiam nada menos do que três filmes: os dramas Jogo de Xadrez e Minutos Atrás, e a comédia S.O.S - Mulheres ao Mar, estrelada por Giovanna Antoneli. Para mais informações sobre cada um, confira a lista abaixo.

O Grande Herói

Baseada em fatos reais, a história acompanha o oficial da marinha norte-americana Marcus Luttrell (Mark Wahlberg), enviado ao Afeganistão em busca de um homem de confiança de Bin Laden. Após se negar a cumprir a ordem de matar um idoso e três crianças, ele acaba pondo em risco toda sua equipe, que é atacada por homens fortemente armados, ligados com a Al-Qaeda.

Lone Survivor, Estados Unidos, 2013.
Direção: Peter Berg
Duração: 122 minutos
Classificação: 16 anos
Ação / Drama / Guerra

Namoro ou Liberdade?

Três grandes amigos sempre levaram uma vida de farra e diversão, sem relacionamentos sérios. Aos poucos, porém, cada um deles conhece uma garota diferente, e contra suas próprias expectativas, os casos se transformam em namoro sério.

That Awkward Moment, Estados Unidos, 2013.
Direção: Tom Gormican
Duração: 94 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia

Jogo de Xadrez

Mina (Priscila Fantin) está presa por fraudar a Previdência Social, e além de ter que se defender das outras detentas, precisa escapar da vigilância do diretor da unidade (Tuca Andrada). Além do mais, o crime que ela cometeu envolveu um senador (Antônio Calloni), que tenta de todas as formas impedir que seu nome venha à tona.

Jogo de Xadrez, Brasil, 2014.
Direção: Luis Antônio Pereira
Duração: 90 minutos
Classificação: 14 anos
Drama / Policial

S.O.S. - Mulheres ao Mar

Após receber o pedido de divórcio do marido, Adriana (Giovanna Antonelli) descobre que ele irá viajar num cruzeiro junto da nova companheira. Incentivada pela irmã, elas decidem embarcar na viagem, para que ela consiga reconquistá-lo.

S.O.S. - Mulheres ao Mar, Brasil, 2013.
Direção: Cris D'Amato
Duração: 96 minutos
Classificação: 12 anos
Comédia


Minutos Atrás

Nildo (Otávio Muller) e Alonso (Vladimir Brichta) são dois catadores, cujas almas solitárias vagam pela vida em busca de um motivo para suas vidas. Junto com seu cavalo Ruminante, os dois partilham estórias fantásticas e surreais, que às vezes, beiram a insanidade.

Minutos Atrás, Brasil, 2013.
Direção: Caio Sóh
Duração: 106 minutos
Classificação: 14 anos
Comédia / Drama / Fantasia

quarta-feira, 19 de março de 2014

Crítica: Ninfomaníaca: Volume 2 (2014)


Finalmente chegou ao fim o mistério que existia sobre a segunda parte do mais longo e polêmico filme de Lars Von Trier. Se a primeira chamou a atenção pelo humor, a segunda priorizou a dramaticidade e a melancolia, e apesar de inicialmente ser tudo parte de um mesmo filme, é bastante evidente a diferença entre ambos.


Ninfomaníaca: Volume II (Nymphomaniac: Volume II) continua exatamente do ponto onde o primeiro parou, mas logo retrocede rapidamente aos 12 anos de Joe, onde ela define o seu primeiro orgasmo e a visão transcendental que teve no momento. Seligman (Stellan Skarsgard) aproveita a história e monta um paradoxo com uma famosa imagem cristã, dando início desde cedo à polêmica, que Von Trier tanto adora.

A principal característica de ambas as partes são as digressões dos personagens de Joe e Seligman. Os diálogos tomam conta de boa parte do tempo, e são recheados de influências literárias, filosóficas e até mesmo musicais, chegando às vezes a fugir do tema principal, ainda que retorne subsequentemente. O personagem de Seligman aparece mais, e tem uma abordagem um pouco mais intimista nessa segunda parte, e finalmente acabou ganhando seu espaço merecido.



Seguindo a narrativa em forma de capítulos, dessa vez Joe está casada com Jêrome (Shia LeBoeuf), e está prestes a dar à luz a um menino. Com o advento do filho na vida do casal, e principalmente da rotina, a vida sexual dos dois acaba sofrendo uma perda significativa, e isso acaba deteriorando a cabeça de Joe. Ela continua com seu desejo incontrolável, enquanto Jêrome ressente por não conseguir mais dar conta, e após uma conversa séria, ambos optam por uma medida drástica: Joe continuará morando junto com Jêrome e o filho, mas está livre para transar com outros homens.

Nessa busca por prazer exterior, ela acaba se metendo em situações bastante incomuns e degradantes. Numa dessas conhece K. (Jamie Bell), com quem passa a ter sessões de sadomasoquismo (com cenas fortes e realistas ao extremo). Nesse mesmo período, por conta de suas saídas constantes de casa, ela acaba neglicenciando os cuidados com os filhos, o que faz com que Jêrome vá embora definitivamente com ele.


O capítulo 7 começa com uma Joe diferente após o drama familiar. Desesperada, ela começa a buscar ajuda em grupos de apoio, com mulheres que vivem seu mesmo problema. Porém, com o tempo, ela percebe que no fundo não está fazendo nada de errado, e o discurso dela em frente às outras mulheres é de se aplaudir de pé.

O filme frisa bastante no fato de que, se Joe fosse um homem, talvez suas atitudes quanto a sexo seriam aceitas com muito mais facilidade. No final, Seligman comenta sobre isso brilhantemente. Afinal, por que uma mulher não pode ser livre para sair com quantos homens quiser? Por que ela não pode buscar prazer, mesmo que seja através das situações mais curiosas? Por que ela tem que ser refém de uma sociedade hipócrita, que a olha com desdém enquanto guarda para si os segredos mais obscuros de sua própria sexualidade? 



De todas as cenas polêmicas, talvez a do pedófilo seja a que mais choca. Ao descobrir a preferência sexual de um homem por crianças, Joe se solidariza com ele, afinal, ambos vivem transtornos sexuais que necessitam esconder, e vivem culpados diariamente por ter que conviver com essa sua condição. Se ele nunca fez nada de mal a ninguém, qual a culpa que ele tem de carregar esse fardo, esse desejo incomum? Serve como um tapa na cara de quem julga os outros sem se colocar no lugar, e é uma das partes mais interessantes do longa sem dúvida alguma.

A parte menos interessante, porém, é a final. Parece que toda a estrutura cuidadosamente planejada nas primeiras horas desmorona nos últimos 30 minutos. Depois que Joe começa a dividir o apartamento com P. (Mia Goth), uma menina bem mais nova, e as duas começam a ter relações, a história parece se perder. Além disso, Joe consegue um emprego estranho, de cobrança de dívidas, que culmina no reencontro mal elaborado com Jêrome. 



Assim como na primeira parte, a sequência também possui uma belíssima fotografia, com uma estética diferente de outros filmes do diretor. As atuações não são impressionantes, mas também não decepcionam, e a trilha sonora continua excelente. O único deslize narrativo, ao meu ver, foi a troca repentina de atrizes em um dado momento, fazendo Joe envelhecer praticamente vinte anos em três.

No mais, trata-se, sem dúvida, de um filme que vai ficar marcado para sempre como um dos mais impactantes da carreira de Von Trier. A viagem pela vida de Joe certamente vale a pena, ainda que não seja um filme fácil de engolir. O final é uma verdadeira crítica ao lado perverso da natureza humana, onde ninguém escapa, por mais caráter que pareça ter.



Crítica: Flores Raras (2014)


Uma verdadeira joia rara do cinema nacional. É assim que descreveria o novo filme do diretor Bruno Barreto, que enfim, parece ter feito a grande obra da sua carreira até então. Diferente de tudo que já foi visto no cinema brasileiro, o filme toca num tema polêmico e super atual: o relacionamento amorosos entre duas mulheres.


A trama mostra a relação que existiu entre a poetisa norte-americana Elizabeth Bishop e a arquiteta e urbanista carioca Lota de Macedo Soares. Em meados da década de 50, Bishop (Miranda Otto) vivia uma crise criativa, e na tentativa de se reinventar, partiu rumo ao Rio de Janeiro para ficar na casa de sua amiga Mary (Tracy Middendorf), então companheira de Lota (Glória Pires).

A princípio era para ela ficar apenas três dias no local, mas por uma série de motivos acabou ficando mais do que o esperado. Com o tempo, ela e Lota não conseguiram controlar mais o desejo que passaram a nutrir uma pela outra, e iniciaram uma tórrida relação de amor, mesmo com Mary em casa.


Arquiteta de mão cheia, Lota projetou um local no próprio terreno (uma propriedade belíssima no interior da capital carioca) para que Bishop pudesse, com tranquilidade, escrever suas poesias, usando a paisagem como inspiração. O fato é que não tardou para que a poetisa voltasse a escrever, em um ápice criativo, que resultou em diversos prêmios literários a partir de então.

Uma das partes mais interessantes do enredo é a ambientação que ele faz do Brasil nos anos 50, tanto em fatos políticos, como em construções de obras até hoje consideradas um marco no país. O Rio de Janeiro está irreconhecível, mas percebemos que já naquela época havia uma gritante desigualdade social, como mostrado na hora em que as duas compram uma criança de uma família pobre para cuidar como filha.


A cena que marcou o filme, para mim, foi o discurso de Bishop durante um jantar com políticos, incluindo o governador do estado, Carlos Lacerda, logo após o golpe militar que instaurou a ditadura no Brasil. Ela se indigna ao ver que, em pleno golpe, pessoas jogam bola na praia e se divertem como se não tivessem acabado de perder sua liberdade. Usando isso como exemplo, critica a alegria exacerbada e o desejo de comemorar do povo brasileiro, como se aqui todos levassem tudo na brincadeira.

Tecnicamente o filme é muito bem construído. As tomadas são criadas com uma visão microscópica aos detalhes, e Barreto está de parabéns pelo excelente trabalho. Enquanto Lota é expansiva e emotiva ao extremo, Bishop é contida e silenciosa, e essa diferença acaba ficando evidente graças às excelentes atuações de Miranda Otto e Glória Pires. A fotografia do longa também é exuberante, assim como a trilha sonora, que mescla com maestria Bossa Nova e MPB.


Em um tempo de ouro para os filmes que abordam o homossexualismo feminino (vide o sucesso de Azul é a Cor Mais Quente), Flores Raras conquista seu espaço, mas com certeza vai muito além disso. É um filme que vale a pena ser apreciado, sem dúvida alguma.